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Reinações e pensamentos sobre Briggite Bardot, Yoko Onno e a Quaresma
Augusto Bezerril - augusto@augustobezerril.com.br
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Acordei contando 40 dias. Prezo sempre pela Quaresma. Acho um período de sinalizações e observações sobre nossas vidinhas. Acho meio uma época para ficar conversando com seus botões: lembrar (ainda mais) que Deus existe e também que Jesus não foi poupado. Daí a primeira senha do meu dia foi pensar: “Obrigado, meu Deus. Tenho tido bem sorte”. Ainda mais se eu lembrar que fui uma criança, digamos, peculiar. Um Bob Esponja sensorial afeito a transversalidade.
Acho que li Clarice Lispector bem antes que a maioria dos meus amigos (incluo os amigos interessados em livros). Isso sem falar em Monteiro Lobato e outros clássicos da literatura infantil brasileira e universal. Meu livro xodó era, aos nove anos, uma coletânea sobre os pintores europeus. De Caravaggio a Miró. Adorava ler os perfis e visualizar as obras. Caravaggio sempre me impressionou em todos os sentidos (leia-se vida e obra). E, partindo para transversalidade e seguindo em outra direção, eu sempre fui apaixonado pela imagem de Brigitte Bardot jogada na praia, andando pelas ruas e tocando violão em Búzios. Eu sempre achei os vídeos de Lennon e Yoko uma declaração de amor. Na minha cabeça, ele nunca morreu para Yoko Ono. Para mim, ele meio que habita Yoko. Já deu para entender esse meu cabeção, né?
POIS BEM
Lembro de uma história meio realista fanstástica passada em Pedro Velho, interior do Rio Grande do Norte. O meu avô materno era um senhor dos moldes tradicionais. Casa mais para o colonial e de uma correção impecável. O melhor amigo dele era, digamos, modernista. Construiu uma casa, na quadra vizinha, no melhor estilo Le Cobursier. Era uma caixa, entre os casarões da sede do município. Como a história vai ficar engraçada, vou chamá-lo de Ivan. Adorava ir na casa dele: tanto pela harmonia das formas retas, quanto pela incrível biblioteca. Ele tinha fascínio por astronomia. Todas as filhas de “Seu Ivan” estudaram na Escola Doméstica, de educação de essência suíça. A mais velha acabou se apaixonando por um hippie, de quem teve dois filhos.
MEMÓRIA
A minha lembrança traz o dia em que o tal hippie foi em Pedro Velho. Alto, loiro, olhos claros e estilão jogado. Ele chocou a cidade não apenas pela beleza e forma física e o modo de se vestir: camiseta, jeans, pulseira e brinco. Mas por ter provocado uma reação inesperada. Seu Ivan, mais conhecido pelo intelecto, quis matar o rapaz. A razão: o prosaico fato de ter “mexido” com a filha alheia. Era final de tarde. E toda cidade foi parar em frente a casa em estilo modernista. Da praça, podia se visualizar a esquina da casa do meu avô. E, antes, a modernista residência de seu Ivan, com a fachada tomada pela multidão.
ENFIM
Meu avô se chama, como eu, Augusto Bezerril. Era um exemplo. Discreto, educado. Nunca vi meu avô levantar a voz ou, nem de brincadeirinha, ser deselegante. Foi político e empresário, mas sempre ético. Viveu anos numa cadeira de roda. Mas sempre recebia a todos com alegria e um olhar muito terno. Na minha transversalidade, lembro de tudo isso como quem observa os sinais da Quaresma, que antecede a Páscoa. Ser vindo da luz para a luz retornará.
"Como os historiadores sabem há tempo, a cada vez que evocamos eventos passados, nossas lembranças são imediatamente reescritas e corrigidas por essa evocação"
Contardo Calligaris
foto_reprodução
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